Rola-bosta: metalinguagem do pensar antropofagia-coprofagia

Palavras-chave: Antropofagia, Coprofagia, Simetria, Ator-Rede, Rola-bosta

Resumo

As coisas excretadas, em geral, não despertam tanto interesse quanto o despertado pelo espetáculo de imagens inodoras, cheias de humanidades e urbanidades que habitam nossas páginas de papel, telas de computadores e celulares. Este cenário mantém preferencialmente os excrementos longe dos sete orifícios das cabeças pensantes. Penso nesse lugar higienizado como o lugar de produção do pensamento dominante de nossa humanidade, a linguagem escrita. No
outro extremo, em lugares distantes, estão as estações de tratamento de esgoto ou emissários submarinos que levam os excrementos para longe, fora do alcance da visão humana, produzindo assim uma metalinguagem excretada. Por um lado, os humanos civilizados, em sua vida privada, veem diariamente com certo desprezo seus excrementos em suas próprias latrinas e, eventualmente, em seus papéis higiênicos. Por outro lado, o besouro rola-bosta vive uma realidade oposta a esta, ou seja, seu cotidiano é manipular e devorar excrementos com o objetivo de levá-los a algum buraco onde ocorrerá a reprodução de sua espécie. Então, a merda é seu objetivo existencial. A metáfora do rola-bosta me interessa quando o vejo como ator-rede de fronteira no continuum antropofagia-coprofagia. No centenário da Semana de Arte Moderna de 1922, praticamente o buraco do Movimento Antropofágico, este trabalho pretende refletir de forma híbrida misturando antropofagia com coprofagia, alinhando-se com Glauco Mattoso na crítica do quanto pensamos sem excremento. Ou seja, praticamente cem anos sem ânus!


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Biografia do Autor

Eduardo Nazareth Paiva, Universidade Federal do Rio de Janeiro

Engenheiro Aposentado do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação em Engenharia (COPPE-UFRJ). Experiência como Engenheiro, Gestor, Pesquisador e Professor. Coordenador de Curso Superior de Tecnologia (2006-2011), Professor Colaborador Voluntário do Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e das Técnicas e Epistemologia (HCTE-UFRJ) (2018-2021), Superintendente de Pesquisa (2015-2016), Diretoria da Associação Brasileira de Estudos Sociais das Ciências e das Tecnologias (ESOCITE.BR - 2015-2017), organizador de eventos técnico-científicos com publicação de trabalhos e participação em bancas, inclusive em bancas de concursos públicos. Membro do Grupo de Pesquisa NECSO (Núcleo de Estudos de Ciência & Tecnologia & Sociedade), registrado no Diretório dos Grupos de Pesquisa do CNPq. Membro da Sociedade Brasileira de História da Ciência (SBHC) e da Society for Social Studies of Science (4S). Formação Acadêmica: Pós-doutorado em Estudos de Ciência, Tecnologia e Sociedade (2013, HCTE-UFRJ), Doutorado em Engenharia de Sistemas e Computação (2004, COPPE-UFRJ), Mestrado em Administração (1996, FEA-UFF), MBA em Engenharia de Software (2015, EP-UFRJ) e Engenharia Civil (1982, EE-UVA).

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Publicado
2023-05-19
Como Citar
Nazareth Paiva, E. (2023). Rola-bosta: metalinguagem do pensar antropofagia-coprofagia. Revista Scientiarum Historia, 1(1), e402. Recuperado de https://revistas.hcte.ufrj.br/index.php/RevistaSH/article/view/402
Seção
Ciência, Tecnologia e Sociedade